Sim, eu sei que muitos dos meus tios fazem atualmente mais aniversários de falecimento do que de vida. O que se há de fazer? Perguntinha besta, essa...
Sinto falta, sinto saudade, sinto uma carência que não irá aplacar nunca. E hoje decidi que queria falar dessa minha tia que me faz tanta falta.
Não tenho o menor interesse em saber como ela foi como esposa, como mulher ou como mãe, pois sei como foi como tia. Nessa categoria não tenho queixa alguma. Ela me fazia rir muito. Mesmo em momentos de intensa dor conseguia nos fazer rir. Era muito amiga de meu pai e os dois se "zoavam" como poucas vezes vi duas pessoas fazerem entre si sem se machucar revelando um carinho incomensurável. Essa é a tia que ficou na memória.
Na ultima vez que estive em sua casa decidiu por auto recreação que iria fazer minha mala e eu, pessoa de personalidade não muito fácil, decidi que ela não iria fazer de jeito nenhum.
Ela fingia que não me ouvia e eu fingia que ela estava me convencendo para ao final e ao cabo virar de ponta cabeça a mala e dizer: eu faço a mala! Lembro-me de sua fisionomia chocada mas carinhosa largando mão de insistir com a sagitariana aqui. Depois a chamei para mostrar como ficou e ela disse: do meu jeito caberia mais coisas; ao que respondi: mas quem disse que queria levar mais coisas?
Muitas vezes discutíamos mas era sempre revelador. Muitas vezes ela me contava casos que os guardei com um carinho infinito e muitas vezes conversava com ela sobre suas dores e o quanto era difícil tolerá-las. Lembro-me em especial do dia que ela me contou que ouvia o tempo todo uma musica sacra que não parava e passado um ano após sua morte li no caderno ciência sobre a descoberta de uma doença misteriosa em que pacientes ouviam musicas normalmente de cunho religioso e até hoje acompanho essas noticias pensando que ela foi uma pioneira em muitas coisas.
As vezes, ela queixava das pessoas não acreditarem no que dizia e eu falava: não se importe pois eu acredito. Creio que graças à Deus, nunca ninguém se referiu a isso como PIRIPAQUE, palavra que abomino pois tem o dom de diminuir o que sentimos e que normamelmente é proferida por "sábios" envoltos numa sabedoria que advém da própria ignorância. Tenho horror a essa palavra e espero de coração que minha tia querida nunca tenha tenha visto ou ouvido se referirem a ela como se fosse uma exagerada, etc. e tal.
Tia Waldeneuza me ensinou o prazer de presentear, me ensinou a contar uma boa prosa, me ensinou expressões típicas da família, me ensinou a simplicidade e espontaneidade de se tirar uma foto de alguém desconhecido para agradecer o bom atendimento. Me revelou como uma simples foto poderia fazer um padeiro, uma vendedora, uma enfermeira, um verdureiro, um garçom entre outros a se tornarem verdadeiras realezas com apenas um click que a ajudava a guardar lembranças de suas viagens e a tornar meros desconhecidos em cidadãos importantes. Isso não tem preço e serei eternamente grata a ela por tudo isso e o céu também.
A benção minha tia de onde você estiver. Daqui só sinto saudade e lembranças, boas lembranças.