Faz dias venho pensando muito sobre novas/velhas experiências aprendidas em nossa familia. Existe uma que considero lapidar que é o nosso conhecimento vasto e profundo sobre barro, lama e poças d´água. É impressionante o conhecimento da familia sobre essa questão. Como se deve andar no barro? Como sair de um carro atolado na lama e não ficar sem sapato? Como não perder a pose ao empurrar um carro e afins? Como evitar que respingos de lama entrem orelha adentro? Como levantar, após desatolar e escorregar seja lá o que for, sair correndo e ainda pular dentro do veiculo que não pode parar? Como enfrentar os sorrizinhos céticos dos parentes ao saber que vamos descer para a cidade e bailar? Kombi! Um veiculo emocionante na lama... Como voltar de um baile e sobreviver quando o que se quer é só deitar? O momento da desistencia, do entregar os pontos... A impotência... Como evitar que a touca feita durante três dias no cabelo crespo se inutilize? Como não desistir do baile quando você se encontra a 14 quilometros dele, sendo que 4 desses quilometros são de barro? Como salvar a prima que desce mas não chega, da outra que tenta e cai na vala, do outro primo que chega a grudar o fundo do carro no barro? Sem contar parentes que ao voltar da farra coloca o jeep no canavial...Gostaria de falar sobre tudo isso mas devo ser seletiva. Esta semana descobri algo aterrador: Posso entender muito de barro, lodo(detesto) lama, mas não sei nada sobre enchentes. Esse é meu novo tema. Há muito o que rir mas há muito o que chorar, também. Familia que atola unida sem dúvida permanecerá unida, mesmo exausta.
Parentes queridos parentes
O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.
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15 de set. de 2009
20 de jun. de 2009
Descobri que Papai Noel não existe novamente...
Não dá para contar a quantidade de "Papei Noel" que descobri não ter existido em minha vida. Não que isso seja ruim mas sempre fico com uma sensação de ter perdido tempo acreditando inutilmente em algo. Bobagem? Pode ser, porém junto vem um sentimento de " e agora?". Como saber o que é mesmo verdade? Não é meu propósito listar o que acreditava e deixei de acreditar, mas contar algo que aconteceu comigo essa semana e a perplexidade que sinto nesse instante.
Tudo começou quando (adoro esse começo de frase pois sempre me lembra a Cila ou Gracyra) anteontem sonhei com alguém do passado remoto e que não tivemos a oportunidade de conhecer; afinal não vivemos o século XIX muito menos entre 1820 e 1840. Talvez minha safra de netos se lembre de uma menção ou outra em relação a nossa Avó Balbina. Pois foi com ela que sonhei... Pode?
O que ouvi sobre essa avó sempre me impressionou: mulher de autoridade inquestionável, personalidade fortíssima, além do que foi a mentora política do vale do Capivari (hoje Consolação) e que, entre outras coisas, se fosse preciso fazia até mortos votarem.
Em minha memória a via como pertencente a família Ribeiro (nossa base) na genealogia. O sonho me fez fazer algumas perguntas para minha mãe que se lembra muito pouco dela. Não a conheceu mas se recorda que era mencionada com respeito pela família. Ela era fogo, disse-me ela.
Hoje resolvi ir atrás dela: procurei, li o livro de genealogia feito pelo padrinho de minha mãe, José Ribeiro, pensei, fiz conta até cansar. Depois fui até minha mãe e falei: O mãe, pela lógica a avó Balbina não era da Família Ribeiro de Carvalho. E ela, impassível, respondeu-me: Mas quem disse a você que ela era? Meu queixo caiu... Ninguém me disse na verdade, mas sempre acreditei... (esse papai Noel também não existe, lerda, disse para mim mesma). Então se ela não "pertencia ao nosso livro genealógico" pertenceria a quem? De onde ela veio? Como se tornou uma pessoa tão importante sem nunca ter saído de um lugar? Como pode ser lembrada por tantas gerações?
Senti uma saudade monumental do Dema - Adhemar Paulo de Almeida- que descobri acidentalmente, ter morrido recentemente. Se alguém poderia me dizer quem ela era, de onde ela veio, quem gerou, qual sua história? Só poderia ser ele.
Um dia, isto é, uma noite chegamos tarde a beça lá no sul de Minas e não tinha ninguém acordado que pudesse nos oferecer uma cantinho. Ficamos "em palpos de aranha" , como dizem. Não me lembro quem mas alguém lembrou que talvez o Dema estivesse acordado e tocamos para a Fazenda da Bateia. Lá chegando, Dema nos recebeu muito bem e enquanto foi preparar camas mandou os rapazes pegar uma galinha para fazer um jantar bem gostoso. Nós dois ficamos proseando no processo de "fazer as camas"; eu esticava um lençol, ele já ia adiantando outros. De repente me perguntou se eu sabia que ele estava escrevendo um livro? Falei que sim e que era sobre um parente. Um parente não, disse-me ele, uma parente... Quem? perguntei logo. "A vida de Balbina Simões de Almeida", respondeu com um sorriso vitorioso. Fiz uma série de perguntas técnicas do tipo: mas como? por onde começou? como soube? etc e tal. Até que ele me falou: quer ler o rascunho? Sem dúvida que queria.
Lembro-me de ter deitado na rede com os manuscritos nas mãos e começado a ler... Só parei para comer a galinha ao molho pardo e em seguida, infelizmente, fomos dormir. Aqueles manuscritos rondam minha cabeça muitas vezes. Da última vez que perguntei lhe dobre o livro respondeu que estava em BH para ser revisado e talvez editado... Nunca mais soube do livro, dos manuscritos e, parece-me que agora, não saberei mesmo, afinal, ele morreu.
Lembro-me de duas coisas interessantíssimas sobre a avó Balbina. Primeira: Ela era analfabeta, assim como todas as mulheres da época, no entanto, sua curiosidade e interesses eram tão grandes que seu pai a deixava ficar escutando as conversas de homens que aconteciam na fazenda. Seu interesse pelos assuntos a fazia ficar horas tentando decifrar os jornais e, eventualmente, perguntava ao pai os significados de algumas palavras. Quando deram pela coisa, Balbina tinha aprendido a ler e escrever sozinha.
A segunda coisa aconteceu ao parar a leitura para jantar pois estava num momento muito interessante: Nossa tetravó Balbina estava sentada no alpendre de sua fazenda quando um homem a cavalo entrou porteira adentro, sem fazer cerimonia e foi se aproximando com ares arrogantes. Parou e perguntou: De quem é essa fazenda? Ao que ela, sem levantar a cabeça da costura , falou baixo mas incisivo: Primeiro você apeie desse cavalo, tire o chapéu e me cumprimente. O sujeito assim o fez. Então, calmamente, vó Balbina ergueu a cabeça e olhando fixamente para o cavaleiro disse-lhe: É minha. Sou Balbina Simões de Almeida.
Ao parar a leitura lembro-me de ter pensado: Uau! Que mulher poderosa! Só que nunca mais saberei o que o ex-arrogante queria com ela. Que droga!
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