O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.
Flavia, minha prima filha de tia Wayne, irmã de minha mãe, nos presenteia com esse pequenino post:
Um momento muuuito diferente estou vivendo:
meu Querido Marido Jose Carlos está viajando,
minhas filhas trabalhando, uma em Curitiba e outra em SP,
minha secretária doméstica de férias...
Peculiar
E fui almoçar panquecas feitas por Renata - muito gostosa - e escutei mais histórias de minha mãe:
Lembrou que Tia Waldete - já viúva do tio Walter, ficava passando roupas, a Vó Hilda costurando e também escutando a Rádio de Juiz de Fora onde Tio Adenir trabalhava e mandava, todos os dias, um "boa noite Waldete".
Histórias....
É assim em nossa familia quando nos dispomos a ouvir sempre temos algo a mais para dizer.
Obrigada, Flavinha
Como podem observar uma mesa é muito importante para nós
Oi tia Wayne, depois de um longo e tenebroso inverso achei mais uma música cantada por Nuno Roland. Uma pena o som não permitir ouvir toda a letra pois a preocupação do video é mostrar um vitrolinha.
Estou indo pela intuição e algo me diz que a música chama-se Meu destino. Procede tia? Dê uma espiada.
Agora vou me por a caminho em busca da letra perdida, ok?
Ouça enquanto isso.
beijos e sua benção
Mais do que um complemento esse trabalho da Flavia merece constar de um post só dele. Ficou lindo além de muito valioso. Esta tudo aqui.
Conforme prometido tia, segue o Nuno Dificil Roland, cantando a musica que a tanto tempo a senhora quer ouvir.
Estou muito feliz por proporcionar essa alegria para você, viu? E por favor, continue cantando.
Um beijo carinhoso! Segue abaixo a Valsa de Guarapari, de Pedro Caetano.
Faz muito tempo. Mas nada conseguiu apagar o que senti ao presenciar tia Wayne soltar a voz na calçada.
Foi numa tarde que ficou lá trás quando ainda morávamos na praça Guilherme Kawall.
A família Almeida Abrantes costumava passar lá em casa após fazer a “mudança de guarda roupa” dos filhos. Me lembro que eles vinham pelo menos duas vezes por ano com esse objetivo. Era algo ritualístico e como tal muito interessante.
Ficava impressionada com a satisfação que meus tios nos transmitiam não só com as compras mas com a oportunidade de nos encontrar também, pois era um “conversê” danado de bom. Era muito legal. Ficávamos proseando a mesa e, após o almoço, continuávamos sem levantar para não perder tempo. E dá-lhe cafezim. Uma vez ela comentou olhando para mim: Não é uma delicia? A gente vai ficando aqui e quando vê já é hora do lanche; não precisa nem desarrumar a mesa.
Acho que a prosa só parava quando o maxilar começava a doer: fosse por falar, fosse por rir. E dá-lhe ensinamentos.
Não me lembro em que momento, se foi antes ou depois das compras que ficou decidido que iriamos ao Shopping Iguatemi para ver qualquer coisa. Ao sair de casa, ainda na calçada, ela deu um sorriso feliz e cantou em alto e bom som “Éééé primaveeeraaaaaaa te aaamo......... fiquei absolutamente abobada assim como a maioria das pessoas na praça. A impressão que me deu foi a de que era natural e frequente pisar na calçada e soltar a voz. Natural era, mas frequente não; simplesmente acontecia.
Lembro-me de ficar embasbacada e durante muito tempo me questionar se algum dia teria coragem de repetir o gesto. Afinal de contas era um tanto estranho... Mas seria inadequado? Não. Era apenas uma manifestação de felicidade.
Vimos isso e sabemos que era pura felicidade, pelo dia, pelo céu, pelo shopping, pelas roupas, pela irmã, pelo cunhado, pelos sobrinhos, não importa. O importante era manifestar a felicidade sentida. Ainda não o fiz, mas já tenho coragem (o problema está na ausência de afinação, coisa que ela tem de sobra).
Nesse dia ,especificamente, houve mais uma cena impagável: Fomos a uma loja de disco chamada Hi-Fi comprar um disco qualquer e ela, muito segura de si, perguntou ao vendedor (um pouco mais velho ou mais novo do que eu que devia ter uns 15 anos) se ele conhecia um cantor chamado Nuno Roland. O rapaz disse um não com uma cara de “o-que-será-isso?” que jamais esquecerei. Ela então, educadamente, resolveu cantar para ver se ele lembrava pela melodia e se pôs a cantar um trechinho na maior desinibição. Não dá para esqueceri essa cena enquanto viver. Uma pena não ter guardado o nome da música para oferecer a minha tia com gosto.
Como já deve ter dado para perceber é sobre essa tia e seus ensinamentos que gostaria de falar. Primeiro por ser um dos meus ídolos na infância e na adolescência; segundo, por que além de ser meu ídolo, tia Wayne foi e é uma das pessoas mais significativas em minha vida. Tenho a impressão que ela não sabe o quanto me fez mudar e o quanto me ensinou em termos de viver a vida.
As dificuldade tecnológicas que encontrei para escrever esse post não chegam aos pés do prazer que sinto ao fazê-lo. Era importante aprender a colocar a musica como introdução no post e, mais ainda, editada para que percebessem como ressoou em minha cabeça a contata na praça. Marco profundo em minha história.
Ela sempre me fez rir mesmo brava (ela ou eu). Muitas vezes não a entendia, pois afinal é difícil entender alguém que nos acorda as 5 horas da manhã para que puséssemos nossos narizes no vidro da janela gelada de Campos de Jordão e víssemos o espetáculo da geada. Alguém que para nos dar um café fresco ferve a xícara tornando a coisa em si um pouco tépida demais; ou alguém que nos abraça apertado enquanto pergunta: “tá boazinha?” segurando firmemente nossos braços e olhando-nos nos olhos a espera de confirmação (nunca a negação). Alguém que não nos deixava (quando adolescentes) sair antes de lavar todas as louças, de pegar todas as lenhas, de fazer xixi mesmo sem vontade, escovar os dentes mesmo já tendo escovado. Alguém que nos faz comprar, sem precisar, uma duzia de meias de seda (que tenho até hojee isso faz mais de 15 anos) das cores mais variadas como turquesa, laranja, verde claro e a verde escura, também, pois poderíamos precisar (infelizmente nenhuma delas tinha a tal costura atrás, como já disse anteriormente). Alguém que responde todas as nossas perguntas num tom único para contar o bom e o ruim.
- Tia, como está fulano? Podemos perguntar inocentemente e ela quase saltita e diz: “Ah! morreu coitadinho, mas feliz, muito feliz”.
- E Beltrano, tia? "Ah! Tá ótimo. Roubaram a casa dele, mataram seu cachorro e ficou de louça-nem-um-pires, mas agora esta ótimo. Tudo passa, não é minha filha?”
Uma vez deixou-me emocionada ao responder a pergunta se ela e meu tio (Zé Ireu) ainda dançavam como antes nos bailes e festas com um sonoro “Claro que sim! O Zé e eu já entramos assim quando chegamos nos bailes” enquanto se punha na posição correta para enfatizar e demonstrar para nós, ouvintes, a arte de dançar junto como ninguém.
Era lindo vê-los dançar. Pareciam caminhar nas nuvens. Um casal elegante, sorrindo e deslizando na pista com a maior facilidade. Parávamos para vê-los. Eu pelo menos o fazia com satisfação e orgulho.
Minha tia me mostrou como é bom dar adeus para as pessoas em Cumbica, pois todos respondem lá na parte de baixo do saguão de embarque. Parece bobagem, mas não é. Quando André e Soraya casaram-se fomos acompanhá-los até o aeroporto e, independente da despedida que fez para meu irmão e minha cunhada, naquele dia, muita gente embarcou feliz pois alguém os “reconheceu” e lá de cima, havia desejado boa viagem com um adeus vibrante e um belo sorriso,.
Há tanta coisa para dizer sobre ela que confesso não saber se não irá ficar muito grande para aqueles que não sabem o que é ter uma tia que mesmo estando viúva, hoje em dia, se recusa a deixar meu tio em paz, pois quem mandou ele morrer primeiro. Se algo precisa de conserto, como diz a Fernanda sua filha, já se põe a falar para ele: “Aiqui, Zé. Pode dar um jeito nisso, quem mandou morrer? Agora trate de ajeitar o problema”.
O curioso é que a coisa se ajeita. Não é incrível?
Gostaria de saber qual era a música do Nuno Roland, tia. Mas não sei. De qualquer forma consegui encontrá-lo, em Marataízes.
Já faz algum tempo pedi para as minhas primas de Campos do Jordão tentar saber junto à mãe delas, tia Wayne, qual era verdadeiramente a diferença entre Almeida e Brandão. Desde pequena ouço uma classificação curiosa em família que é dizer: "Fulano é totalmente Brandão, mas Beltrana é Almeida sem tirar nem por". Apesar de muito intrigada nunca cheguei a perguntar objetivamente a nenhum de meus queridos parentes.
Com o advento do blog e minha tentativa de deixar os bons exemplos registrados reativei a curiosidade. Passado um tempinho, a Flavia me enviou as seguintes palavras de tia Wayne (irmã de minha mãe Waldete):
"Duas famílias diferentes, mas que nos completaram para que fossemos singulares. Os Brandão levando dentro de uma pachorra a vida com carinhos que tinham quando éramos crianças. Os Brandão não tinham aquela organização dos Almeida, mas distribuíam proteção e companhia.
Os Almeida impecáveis, deixando os bancos da cozinha lindíssimos, a horta varrida e mantendo o nome do pai dentro de uma conduta exemplar. Eram também tranquilos para nos levar adiante com carinhos de quem já tivera um pulso firme para que fossemos dignos em tudo. Consegui ver a meiguice de Tia Mariazinha e de tia Ursulina. O desprendimento da Laurinha e a preocupação de Tia Zilda se íamos ficar lá, ou se íamos comer na casa da irmã, pois o marido (creio que o nome q ela escreveu aqui é Lodonho) dentro de sua pão durice deixava Tia Zilda com o mesmo valor. O Joaquim Soldado em afronta para o Vovô Quim, foi um maridão para tia Mariazinha, leal, espontâneo e amigo de todos. Todos nós o adorávamos com sua voz alta, seu bule na mão enquanto tinha café. "
Conta Flavia que: "ele monopolizava o bule... Disse a mamãe, que tinha a xícara numa mão e o bule noutra. Colocava o café e bebia, colocava café, bebia... e assim até acabar o café e ninguém mais bebia!!!". Igualzinho Tio Wilton, (irmão de tia Wayne) que nos mandava fazer limonada, e quando ia com o copo, ele pegava a jarra e bebia nela mess. Ele sozinho com a jarra, e nós, mais ou menos uns 6, com somente um copo pra dividir!
Continuou: Ela me contou que esse Tio Joaquim (Soldado) quando pediu tia Mariazinha em casamento, a família ficou em "porvorosa", pois ele era um SOLDADO!! E que quando foi pra eles casarem, o pai dela (esqueci o nome), avô de nossas mães, ficou doente e o Vô Dito montou um altar pra que Tia Mariazinha casasse dentro de casa pra que o pai pudesse participar do casório.
Minha priminha terminou dizendo: "Depois tem mais. Creio que terei que comprar um mini gravador.... Minha mãe lembra de histórias deliciosas.... e faaaaaala mais que a boca.
O relato continua, mas resolvi parar por dois motivos: O primeiro é que a Flavia conseguiu algo raro que é mostrar nossa família proseando sem parar mesmo através da escrita e em segundo para fazer algo que venho procrastinando faz tempo (vide videozinho "Procrastination" abaixo).
Independentemente de saber a verdade classificatória havia outro interesse que me corroia por não ter dado tratos a bola ainda: Minha tia Wayne.
Incrível, mas essa é uma das minhas tias-modelo (todas foram e são). Observação: quando falo em modelo me refiro a molde, algo ou alguém que serve ou pode servir de modelo ou de exemplo, ok?.
Por isso esse post será dividido em duas partes, como foi o caso das meias de seda.
Eu queria ouvir a voz de minha tia, seu jeito, torná-la presente em minha vida novamente, pois faz muito tempo que não nos encontramos. E foi assim, através da escrita e da Flavia, que consegui fazê-la presente e chacoalhar minha memória.
Penso que já começou a funcionar, pois nunca consegui pensar nela sem sorrir. E é isso que faço nesse instante.
Pessoal, Desculpe-me pela lerdeza mas o post adquiriu vida proria e se bagunçou um tanto. Agora está ajeitado. Se observarem algum erro me avisem por favor.