Parentes queridos parentes

O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.

29 de ago de 2015

Término da revolução de 32 e nosso avô libertado



Lá pras bandas de outubro de 1932 meu avô foi libertado da prisão. Minha avó Hilda catou seus filhos da época, um carro de boi e tocaram lá para o Capivari na fazenda da Tia Bem. Não sabe porque cargas d'água nosso avô sairia por ali para voltar pra fazenda dele, afinal mamãe estava com 6 para 7 anos.
Esta bem nítido na cabeça dela que na volta eles precisavam passar em todas as fazendas para cumprimentar os parentes. A cada fazenda que chegavam impressionava a limpeza das casas, das roupas brancas de doer os olhos nos varais, com chão brilhando preparada para receber o Dito do Ananias. Meu avô descia e contava tudo que havia acontecido, respondia perguntas e mais perguntas, comiam, despediam e partiam.

Deve ter sido um viajão.

Ao chegar na Fazenda do Tio Américo, irmão de nosso bisavó, algo insólito aconteceu que deixa até hoje minha mãe intrigada: Ele estava sentado olhando pela janela pasmaaado (esses `as` são a ênfase de minha mãe) e lá fora, no curral estava a mulher dele andando de um lado para o outro sem parar. Mamãe disse-me que pensou que aquilo era esquisito mas não falou nada, afinal naquela época criança não fazia perguntas. Falou que viu um dos filhos ir até o curral e chamá-la dizendo que o Dito do Ananias estava ali e que ela deu de ombro e continuou a andança.
Perguntei se por acaso alguém havia morrido e minha mãe disse: “ Sei lá , minha filha. Devia ser loucura mansa mas na época deviam pensar que era normal” Ou seja, conjecturas do futuro no almoço de sábado.

Numa das fazendas que pararam minha mãe ficou absolutamente encantada com um galinho garnisé e pediu para o vovô de presente. Em seguida ela lembra da minha avó falando que não, que iria misturar com as galinhas grandes, que daria trabalho, etc e tal. Ela contou-me que só queria saber do galinho que era uma belezim. Um dos primos acabou pegando o dito cujo e deu pra ela. Ficou todas feliz.
Mal sabia o trabalho que esse galinho iria dar na viagem especialmente quando resolvia sair subindo pelo corpo dela até a cabeça para fugir e o povo1 a pegar. Foi um trabalhão mas ela adorou. Acho que a viagem foi mais rápida.

Ela lembra ainda que num determinado momento sentiu sede e que pediu água e a vovó ficou brava pois tinha acabado de sair da casa da avó Laura. Mas não é que na beira da estrada deram uma caneca tão suja que ela olhava a caneca e a água e não sabia o que fazer. Resolveu pela técnica de fingir que bebeu um pouquinho e devolveu agradecida e foi até a fazenda ouvindo minha avó falando do problema...
Ah! O que aconteceu com o galinho? Perguntei e ela me que nao sabe...

1Já disse anteriormente que POVO na minha família são mais de duas pessoas.

6 comentários:

  1. Impressionante como ela se lembra de momentos vividos quando tinha 7 anos, não é?
    Estou agora curiosa querendo saber que fim deu o galinho.

    Bj

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    1. E os detalhes da demonstração do galinho subindo pelo corpo dela? Muito engraçado.... Dá pra imaginar o tamanho da viagem?

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  2. Pô Wania! Estamos na era da tecnologia e vc poderia ter filmado a demonstração né? #curiosa
    E esse "pasmaaado" minha mãe ainda fala com boca bem cheia. Adoro esse linguajar. E obrigada, muito obrigada por essas lembranças. Num certo lapso, havia me esquecido q Vô Dito tinha sido preso.
    Outra coisa: porque Dito do Anania?
    Lembro-me Vó Hilda quando esbravejava com ele dizendo em bom som: Dito Naniiia... eu entendia Nania.
    Pior: se tia Waldete não se lembra do fim do galinho, quem saberá??

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  3. Gente! Viajei agora. Li o post e como sempre pude formar a imagem da conversa, ouviar as vozes e os tons, mas maos do que ler este post viajei pelo blog e no tempo. Delícia!

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  4. Gente! Viajei agora. Li o post e como sempre pude formar a imagem da conversa, ouviar as vozes e os tons, mas maos do que ler este post viajei pelo blog e no tempo. Delícia!

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  5. Flávia, Ananaias era o pai de nosso avô. Era comum falar fulano de beltrano, sabe? Assim como vc é a Flávia do Zé Ireu. Com o tempo Dito do Ananaias ficou DitoNanias...coisas de Minas

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