Parentes queridos parentes

O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.

27 de mar de 2010

Para alguém que gosta de dançar 2

 

Faz muito tempo. Mas nada conseguiu apagar o que senti ao presenciar tia Wayne soltar a voz na calçada.

Foi numa tarde que ficou lá trás quando ainda morávamos na praça Guilherme Kawall.


A família Almeida Abrantes costumava passar lá em casa após fazer a “mudança de guarda roupa” dos filhos. Me lembro que eles vinham pelo menos duas vezes por ano com esse objetivo. Era algo ritualístico e como tal muito interessante.

Ficava impressionada com a satisfação que meus tios nos transmitiam não só com as compras mas com a oportunidade de nos encontrar também, pois era um “conversê” danado de bom. Era muito legal. Ficávamos proseando a mesa e, após o almoço, continuávamos sem levantar para não perder tempo. E dá-lhe cafezim. Uma vez ela comentou olhando para mim: Não é uma delicia? A gente vai ficando aqui e quando vê já é hora do lanche; não precisa nem desarrumar a mesa.
Acho que a prosa só parava quando o maxilar começava a doer: fosse por falar, fosse por rir. E dá-lhe ensinamentos.
Não me lembro em que momento, se foi antes ou depois das compras que ficou decidido que iriamos ao Shopping Iguatemi para ver qualquer coisa. Ao sair de casa, ainda na calçada, ela deu um sorriso feliz e cantou em alto e bom som “Éééé primaveeeraaaaaaa te aaamo......... fiquei absolutamente abobada assim como a maioria das pessoas na praça. A impressão que me deu foi a de que era natural e frequente pisar na calçada e soltar a voz. Natural era, mas frequente não; simplesmente acontecia.

Lembro-me de ficar embasbacada e durante muito tempo me questionar se algum dia teria coragem de repetir o gesto. Afinal de contas era um tanto estranho... Mas seria inadequado? Não. Era apenas uma manifestação de felicidade.

Vimos isso e sabemos que era pura felicidade, pelo dia, pelo céu, pelo shopping, pelas roupas, pela irmã, pelo cunhado, pelos sobrinhos, não importa. O importante era manifestar a felicidade sentida. Ainda não o fiz, mas já tenho coragem (o problema está na ausência de afinação, coisa que ela tem de sobra).

Nesse dia ,especificamente, houve mais uma cena impagável: Fomos a uma loja de disco chamada Hi-Fi comprar um disco qualquer e ela, muito segura de si, perguntou ao vendedor (um pouco mais velho ou mais novo do que eu que devia ter uns 15 anos) se ele conhecia um cantor chamado Nuno Roland. O rapaz disse um não com uma cara de “o-que-será-isso?” que jamais esquecerei. Ela então, educadamente, resolveu cantar para ver se ele lembrava pela melodia e se pôs a cantar um trechinho na maior desinibição. Não dá para esqueceri essa cena enquanto viver. Uma pena não ter guardado o nome da música para oferecer a minha tia com gosto.

Como já deve ter dado para perceber é sobre essa tia e seus ensinamentos que gostaria de falar. Primeiro por ser um dos meus ídolos na infância e na adolescência; segundo, por que além de ser meu ídolo, tia Wayne foi e é uma das pessoas mais significativas em minha vida. Tenho a impressão que ela não sabe o quanto me fez mudar e o quanto me ensinou em termos de viver a vida.

As dificuldade tecnológicas que encontrei para escrever esse post não chegam aos pés do prazer que sinto ao fazê-lo. Era importante aprender a colocar a musica como introdução no post e, mais ainda, editada para que percebessem como ressoou em minha cabeça a contata na praça. Marco profundo em minha história.

Ela sempre me fez rir mesmo brava (ela ou eu). Muitas vezes não a entendia, pois afinal é difícil entender alguém que nos acorda as 5 horas da manhã para que puséssemos nossos narizes no vidro da janela gelada de Campos de Jordão e víssemos o espetáculo da geada. Alguém que para nos dar um café fresco ferve a xícara tornando a coisa em si um pouco tépida demais; ou alguém que nos abraça apertado enquanto pergunta: “tá boazinha?” segurando firmemente nossos braços e olhando-nos nos olhos a espera de confirmação (nunca a negação). Alguém que não nos deixava (quando adolescentes) sair antes de lavar todas as louças, de pegar todas as lenhas, de fazer xixi mesmo sem vontade, escovar os dentes mesmo já tendo escovado. Alguém que nos faz comprar, sem precisar, uma duzia de meias de seda (que tenho até hojee isso faz mais de 15 anos) das cores mais variadas como turquesa, laranja, verde claro e a verde escura, também, pois poderíamos precisar (infelizmente nenhuma delas tinha a tal costura atrás, como já disse anteriormente). Alguém que responde todas as nossas perguntas num tom único para contar o bom e o ruim.
- Tia, como está fulano? Podemos perguntar inocentemente e ela quase saltita e  diz: “Ah! morreu coitadinho, mas feliz, muito feliz”.

- E Beltrano, tia? "Ah! Tá ótimo. Roubaram a casa dele, mataram seu cachorro e ficou de louça-nem-um-pires, mas agora esta ótimo. Tudo passa, não é minha filha?”

Uma vez deixou-me emocionada ao responder a pergunta se ela e meu tio (Zé Ireu) ainda dançavam como antes nos bailes e festas com um sonoro “Claro que sim! O Zé e eu já entramos assim quando chegamos nos bailes” enquanto se punha na posição correta para enfatizar e demonstrar para nós, ouvintes, a arte de dançar junto como ninguém.
Era lindo vê-los dançar. Pareciam caminhar nas nuvens. Um casal elegante, sorrindo e deslizando na pista com a maior facilidade. Parávamos para vê-los. Eu pelo menos o fazia com satisfação e orgulho.

Minha tia me mostrou como é bom dar adeus para as pessoas em Cumbica, pois todos respondem lá na parte de baixo do saguão de embarque. Parece bobagem, mas não é. Quando André e Soraya casaram-se fomos acompanhá-los até o aeroporto e, independente da despedida que fez para meu irmão e minha cunhada, naquele dia, muita gente embarcou feliz pois alguém os “reconheceu” e lá de cima, havia desejado boa viagem com um adeus vibrante e um belo sorriso,.

Há tanta coisa para dizer sobre ela que confesso não saber se não irá ficar muito grande para aqueles que não sabem o que é ter uma tia que mesmo estando viúva, hoje em dia, se recusa a deixar meu tio em paz, pois quem mandou ele morrer primeiro. Se algo precisa de conserto, como diz a Fernanda sua filha, já se põe a falar para ele: “Aiqui, Zé. Pode dar um jeito nisso, quem mandou morrer? Agora trate de ajeitar o problema”.

O curioso é que a coisa se ajeita. Não é incrível?

Gostaria de saber qual era a música do Nuno Roland, tia. Mas não sei. De qualquer forma consegui encontrá-lo, em Marataízes.

Um beijo

7 comentários:

  1. TaTinha disse...
    Impressionante como que cada tia tem suas pecularidades. Tia Wayne é uma delas que do alto de sua sabedoria, conseguia passar muito para cada um de nós.
    Muitas coisas tenho comigo da sua forma de ser... a mais marcante e a que gosto muito é o fato de ter uma aparência parecida com ela, tá... já sei... longe, mas tenho :) pois sua beleza é inigualável. Até hoje é uma mulher de uma altivez em virtude do seu porte de rainha.
    Outra que eu peguei para mim, esta sim eu posso afirmar com propriedade, a sua maneira de criar os filhos quando pequenos e até hoje também.
    Peguei sua mania de super proteger a cria de todas as formas... Lembro que quando Isadora era bebê, não deixava ninguém pegá-la e ninguém podia fazer barulho quando ela estava dormindo... o quarto escuro e tudo no silêncio. Ái de quem ousasse fazer algum chiado que não fosse o chiuuuuuuuuuuuu com o dedo nos lábios em sinal de silêncio.
    Acho que se deve a isto o fato de Isadora ser hoje uma menina calma e muito plácida (placid é ótima) Enrolada no cueiro feito um charuto ( outra ensinamento dela) ela dormia o dia inteiro e a noite também.
    Sua casa era e é sempre uma festa. Não tem uma vez que não tenha um bolo quentinho e um cafezinho gostoso naquele fogão de lenha modernoso, que o tio tinha que arrumar a todo instante.
    Quero passar, pelo menos um décimo, para meus sobrinhos do que tia Wayne passou para mim, o que é ser tia, a tia querida de todos!
    Ah.. dançar como ela é um das minha frustações na vida... que coisa bonita de se ver! Igual a ela, ninguém!

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  2. wania,
    fiquei emocionada e feliz com esse post...minha mãe continua assim, do mesmo jeito, e eu as vezes me pego fazendo essas coisas de cantar na calçada, e os meus filhos falam - Não pira mãe.
    De qquer forma é uma homenagem a todas as nossas tias...elas são especiais, cada uma a seu modo.
    Sinto pena de saber que nunca mais veremos meus pais dançando juntos, mas felizmente tenho no filme do meu casamento uma valsa com os dois. Realmente dava gosto de ver. Uma das características mais marcantes da minha mãe e que vai ficar pra sempre é seu otimismo e alegria de viver que é de dar gosto.
    beijão

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  3. querida Wania!
    tb chorei de emoção.Nós gostávamos mto de írmos fazer as compras e passarmos um tempo com vcs. Lembro da cara de seu pai zombando de nós, eu o adorava.Meu pai tinha uma paciencia de Jó, enquanto fazíamos as compras ele sentava e esperava, de vez em quando ele dava um palpite.
    Qto aos bailes, qta saudades. Hoje já não tem mais bailes por aki, mas tb não ía ter graça, meu pai já não está presente.
    Katya, qto aos bolos, hoje em dia, já não é tão frequente, pois minha mãe passa o dia na rua, e contínua cantando alto, que toda a vizinhança ouve.
    bjks

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  4. A característica mais marcante da tia Wayne, para mim, é o otimismo. A maneira como faz tudo parecer natural é de fazer inveja. Gostar de dançar é genético. Temos diversos dançarinos, na família, mas a tia ganha...e como dança bem!!! Tenho o filme do casamento do Alfredo e, do começo ao fim da festa, lá estavam tia Wayne e tio Zé Ireu dançando, flutuando, encantados e encantando.
    bjs

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  5. Ontem quando li o post, corri com o notebook embaixo do braço para poder ler pra mamãe. Ela estava assistindo a novela, eu disse: Isso aqui está mais, muito mais interessante. Apague a TV pra poder escutar bem!
    Li e enquanto o fazia, ela ia lembrando de mais histórias e rimos muito.

    Cantou as músicas - as 2 - e o Guilherme do Rodrigo com os olhinhos grandes e atentos. Disse que não se lembrava do nome da música do Nuno Roland, mas lá vai um trechinho:

    "Quer viver os sonhos lindos que eu vivi?
    Vá ver as maravilhas de Guarapari.
    Num recanto onde os poetas e os violões não conseguem disfarçar as mais lindas canções."

    Vou tentar gravar ela cantando e mando pra vcs.
    Wania, não é só na calçada que ela canta. Na Abernéssia inteira! Tem uns vendedores de uma loja que qdo ela entra, eles vem e começam a cantar em trio. Imagina???

    Ela lembrou qdo você, a Wanilda e ela foram para o Iguatemi no sentido contrário ao trânsito. Disse que foram paqueradas e muuito! Tres lindas mulheres de parar o trânsito!

    Outra: Quando você a levou no médico de taxi, e ela bem brejeira falou pra vc - mas bem alto para o motorista escutar: "Nossa Wania, já rodamos bastante e ainda não encontramos o Zé Ireu!" O motorista logo veio com o argumento: "Não minha senhora, aqui em SP a cidade é muito grande e não encontramos as pessoas se não marcar o lugar..." Mamãe e Wania seguraram o riso! Mas depois que sairam do taxi encontraram o papai! "Viu? Tenho que falar pro motorista que acha sim!!"

    Outra: Disse que Tia Wilka queria também se despedir do André e Soraya em Cumbica, e o Wander disse que não iam mais encontrá-los, que o aeroporto era muito grande, bla bla bla, e nesse momento, mamãe teve uma vontade grande de se levantar, olhou para um lado, olhou para o outro presentindo algo.
    "Ôo Wilka!"
    "Viu Wander, eu disse que íamos achá-los!"

    Não me lembro dela chamar meu pai só de Zé. Acho até que pra diferenciar o SEU. Era sempre Zéiireu.

    Adorei Wania! Um beijo!

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  6. Ah! Que delicia ver minhas primas atuantes não deixando por menos. É isso aí. Ajudando nas lembranças.
    Fiquei muito feliz de ver que tanto vocês primas queridas, filhas de tia Wayne e do Tio Zéiireu (acho que nós também, Flavia, sempre chamanos o tio assim, só que não demos conta disso) quanto vocês primas Katya e Laura, gostaram do post. E que além disso as fez "puxar pela memória". Uma pena eu só ter podido ver agora.
    Pela enésima vez procurei o Nuno Roland na web e não é que agora ele apareceu direitinho em Guarapari.
    Merece mais um post ou não?
    Já já estará on line, viu?
    beijos para vcs todas e um especial para a tia wayne, ora bolas.

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  7. Wania e MENINAS

    Cada vez que leio essas coisas, sinto ainda mais que a vida circula dentro de mim, e tenho certeza que um poucão dessa VIDA, foi colocada pela Tia Wayne, e que ainda coloca, quando nos encontramos, ou quando penso nela.
    Que essência!
    Tento passar um pouquinho dela aos meus filhos, acho que estou conseguindo.
    Quando estou perto da Tia é como se tivesse perto de minha mãe, consigo diminuir um pouco da saudade e me abastecer com um combustível que não se acaba, é o amor que sinto por ela.

    Tia um beijo te amo

    Wander

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