Parentes queridos parentes

O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.

9 de dez de 2009

Atenção: Pare de ler quem não gosta de textos longos

Acabei de ler o livro que ganhei de aniversário da Wanilda, “Minha vida até agora”, de Jane Fonda. Mais de 600 páginas o que torna a leitura um pouco pesada para quem começa sua artrose nos punhos. Não pensei que iria gostar, ou melhor, não pensei que iria pensar tanto motivada pela leitura. Fazia muito tempo que não registrava frases que me dizem coisas importantes tais como essa que considerei lapidar. “Mudar seu cabelo é reflexo de mudança de pensamento”, dita por Marion Woodmn, psicóloga; p. 601. Incrível, não é Wanilda?


Acabei e fiquei quita saboreando e refletindo a respeito como gosto de fazer. Então me ocorreram coisas muito difíceis como pensamentos, lembranças dolorosas. Resolvi tomar banho para refrescar a cabeça, mas as idéias persistiam. Especialmente a data que se aproximava: 12 de dezembro.

É necessário exorcizar determinadas coisas para podermos nos permitir coisas novas. No dia 13 de novembro de 2008 fui despedida. A frase que ouvi, sutil como uma locomotiva foi: Você precisa procurar outro rumo. Eu pensei, como assim, meu rumo não me trouxe aqui há quase 20 anos? Me lembro de ter ficado calada tentando absorver o que estava acontecendo enquanto em minha cabeça chovia informações, cenas, falas, palavras, ações formando um caos medonho. Pensei em minha mãe. Não queria que se preocupasse, não poderia dizer nada para ela. Ouvi o conselhinho final: Não vá ficar falando para os alunos, viu? Fiquei chocada e lembro-me de ter dito: jamais! Com cara de quem não acreditava deu-me a “permissão” para falar com meus parceiros. Ao que disse não tenho parceiros. E aqui, só tenho alguns amigos, mas nem eles irão saber.

Meu Deus, quanta falta de respeito, de tato, de gentileza e por que não dizer caridade. Me lembro que no começo de outubro, após viver uma pressão absurda (assédio moral mesmo) tomei uma atitude inacreditavelmente errada em sala de aula e sabia que deveria sofrer as conseqüências do ato. Fui chamada a instancia superior e veio a pergunta: Wania, o que você faria em meu lugar? De imediato respondi: Me despediria, sem titubear. Silêncio na sala. Por que você fez tal coisa? Continuou. Impulso, uma ação instintiva, respondi. Instinto? Sim, ação cega regida por leis biológicas. Havia uma testemunha ouvindo tudo, talvez acreditando firmemente que talvez eu fosse tirar o bumbum da seringa ou talvez mentir, sei lá. Fui advertida, mas não recebi a advertência. Questionei, disse que me entregava depois. Coisa esquisita. Não única, com certeza.

Talvez não tivesse havido ninguém mais cruel comigo nesse período, do que eu mesma. Não aceitava minha atitude e buscava entende-la a todo custo. Fui chamada ao setor administrativo e lá uma pessoa superior na postura e no cargo, gentil e muito educada perguntou-me o porquê da atitude em si. Fui muito honesta quando disse que não sabia e que estava, literalmente, rastreando minha vida para tentar entender. Prometi dizer quando encontrasse a resposta, porém, não houve oportunidade. Gostaria de ter-lhe dito que achei a razão.

Em nossa conversa cheguei a aventar que acreditava ser uma reação ao fato de estarem me obrigando a fazer algo que feria os meus valores e princípios. Não tinha certeza. Só coisa assim, seria capaz de me levar a agir errado, como imbecil e impensadamente, pois sou muito rigorosa comigo.

Fui tão castigada por isso. Foi obrigada a ouvir parada em pé, em frente à turma a coordenadora dizendo que já tinha tomado atitude e me dizendo para falar (me desculpar) para eles; me lembro de pedir desculpa e tentar, através de uma metáfora explicar a minha ação; ao começar a contar fui interrompida abruptamente para dizer que já estava bom e que eu podia dar minha aula (sic). A minha sorte, além da perplexidade, foi à presença do orientador que tomou a palavra e falou sobre o problema de se crucificar pessoas quando elas erram e ficar se justificando tanto quando nós erramos a ponto de exigir desculpa e compreensão. Sou grata a ele por isso.

Lembro-me de meu pai dizendo que ninguém pode ser condenado duas vezes pelo mesmo crime... Curioso, eu fui cinco vezes condenada. Meu médico, quando contei para ele, disse-me: Mas você não fez nada contra aluno, foi uma reação contra a empresa. Ele estava certo. Foi uma reação simbólica contra o que vivia naquele momento.

Como doeu tudo isso. Vou poupá-los de mais detalhes apesar de considerá-los importantíssimos. Durante um mês não falei com ninguém sobre o episodio, especialmente em minha casa. Enviei um e-mail para meus irmãos, cunhados, sobrinhos e meu amado contando e proibindo a menção da coisa em casa. Eles foram perfeitos. Éticos, compreensivos e respeitadores. Mas não foi uma coisa boa para mim emocionalmente e fisicamente. As mazelas chegaram rapidinho.

Quando penso no horário em que fui despedida, no dia da semana (quinta-feira), na forma, no conteúdo fico imaginado quanto insensibilidade com o outro. Nossa! Eu devia estar pálida ao voltar para a sala, pois minha amiga T. que dava aula comigo perguntou: O que aconteceu? Me peguei dizendo e, em seguida implorando para que não mencionasse nada ao que ela atendeu.



Talvez tenha sido um dos piores dias de minha vida. Calada, não conversei com ninguém, no entanto, via que muitas pessoas sabiam, não por mim, mas não me procuravam. Voltei-me exclusivamente para minhas aulas e meus alunos que sentiram que havia algo errado, mas não falavam nada e nem eu, como sói acontecer.

Sou muito grata a várias pessoas daquele lugar especialmente A.M. uma inconformada que me seqüestrou e me levou para terapia, aliás, foi e é uma das pessoas que mais admiro. Sempre a vi ficando ao lado de quem estava numa pior mesmo contrária a chefia. Outra A. que considero uma irmãzinha do coração. A minha querida V. que se disponibilizou a testemunhar a meu favor lembrando-se de coisas que derrubaria qualquer argumento, a C. pela elegância e discrição, além da AK. pelo apoio moral e ao D. e ao F. tentando me ajudar. Esse lugar me trouxe muito sofrimento, muita perseguição, chegando a rebaixar-me de posto sem nem imaginar o mal que isso traria e trouxe. Não estou acostumada a ser mal educada e abomino a grosseria, a estupidez no trato com o outro. Não é assim que revelamos autoridade, liderança, conhecimento. O exemplo vem de cima, não é?

Tem mais gente, mas menciono essas mais próximas naquele momento. O que veio depois disso foi o inferno de Dante. Ano difícil que destruiu parte de mim; me fez ficar com a auto estima próximo ao zero, que me deprimiu, humilhou, que me trouxe como companhia a afasia e a descrença em relação a mim mesma. Infelizmente dois eventos gravíssimos aconteceram e me fizeram aprofundar a tristeza e passar a viver também a dor do outro. Não consegui emprego, fui ameaçada de ter o nome em vários lugares (tipo spc, serasa)se não dissesse quando iria pagar, que iria perder a casa, o carro, como se isso fosse mais importante para mim. Nunca foi. Larguei mão de sofrer por isso faz tempo. Mas sofri pelas pequenas e grandes incompreensões na família, pela falta de tato de muitos, de saber a opinião a meu respeito que alguns têm com aquela segurança que a própria ignorância dá. São pessoas que se julgam acima do bem e do mal e se satisfazem rotulando muita gente. Ou seja, diminui alguém para se sentir superior. Credo!

Apesar de tudo redescobri coisas importantíssimas: A Eloina, que nos enche a caixa postal de criticas ao sistema, ao governo etc. e tal. Prima inteligente, arguta e nem um pouca alienada, ao contrário, que me apoiou irrestritamente além de me ensinar que o fígado quando está mal temos sono. Minha prima Katya, que mesmo esfacelada se esvaindo em “sangue”no chão dizia soobeee, vamos, sooobeee, reaaageee. O blog que me deu a oportunidade de desabafar e pensar coisas boas. Perceber a sensibilidade e compreensão de alguns primos. E de “ser” ouvida. Deve ter mais alguma coisa, mas estou com preguiça de escrever. Desculpe!

Esse desabafo de hoje é um ritual que estou me impondo marcando o final de uma fase (foi uma era) e o começo da etapa diferente. Essa irá mostrar para mim mesma o quanto tenho de valor e quanto tenho de abandonar da minha vida até agora ( lembrando do livro) para usufruir as coisas boas que formarão a minha vida de hoje em diante.

Encerro assim essa década infame que me fez perder tanto das coisas mais importantes que construi tais como saber conversar. De tanto falar na importância do ouvir (naquele local) perdi o jeito de ter ao meu lado pessoas com saco, disponibilidade, paciência, muita paciência para me ouvir. O que seria de mim se não tivesse reencontrado minha ex-futura tia Cila.



5 comentários:

  1. Waninha,
    Não dá para falar "sei o que você está sentindo!" Posso falar...sinta! Sinta tudo...raiva, rancor, gratidão, perplexidade, frustração...alívio! Posso afirmar (de carteirinha) que nos adaptamos a todas as situações e que para que essa adaptação ocorra há um período de muita dor. Mas, passa! Tudo passa! E o bom de tudo isso é que aprendemos um pouco mais sobre nós mesmos. O quanto valemos e que valemos muito!
    Para tudo há um tempo!
    O de agora é fazer uma vistoria, colocar algumas coisas no arquivo-morto, jogar fora outras, abrir espaço.
    beijos

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  2. Laura,
    Diferente de você, eu posso falar : - Eu sei o que você está sentindo Wania!
    Mas aprendi com os anos vividos que tudo na vida passa. Até a VIDA passa!
    Tudo ao seu tempo...
    Beijos a todos!

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  3. Wania,
    Hoje voce realmente pos pra fora seus fantasmas.
    Que bom. O fato de voce dividir conosco tudo o que viveu calada nesse ano todo já é uma terapia. E olha que é um grupo e tanto. Muito bom!
    Ponha pra fora, guspa tudo e faça como meu pai falava: as coisas ruins não arquivo, jogo fora. As boas, guardo todas. Grande pai, sabio e doce.
    E agora realmente, bola pra frente que a fila anda. Para os que te julgam ou te julgaram, conselhinho da minha mãe agora, PQP para eles. Sábia mãe também, só não tão doce.
    Não engula sapos, pois eles dão dores de estomago, depressão, taquicardia, coluna travada e uma série de doenças que nosso corpo não merece.
    Viva feliz sua nova etapa e saiba que estou aqui sempre pra te ouvir.
    Bjs

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  4. Waninha,
    Existe a coragem da virada de página após o encerramento do capítulo.
    Esta você tem.
    A dor constatada diante da injustiça juntamente com uma perda dilacerante não justificam a falta de compromisso com a ética.
    Este exemplo você dá.
    Quem confirma que a vulnerabilidade é a única coisa genuína que se pode dar ao outro, e que o essencial é invisível aos olhos, esta pessoa você é.
    Tenho muito orgulho em ser sua prima!
    Mil beijos,
    Eloina

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  5. Minha amada irmã, sei de tudo que passou e tudo que ainda passa ... Próximo ao seu aniversário fiquei pensando numa lembrança significativa. " Minha vida até agora", da Jane Fonda, me chamou atenção pelo título e também pela beleza da autora (quase aos 70 anos) na capa. Fiquei tão deslumbrada com a foto da Jane que fui com o livro ao nosso cabelereiro e pedi para o Celso: Quero este cabelo, estes olhos e esta conta bancária!! Celso conseguiu somente o cabelo igual. Hoje, quando alguém elogia o meu corte e meu tingimento digo (metida) : Jane Fonda fez igual!!. Poderosa sua irmã, né?? Quanto ao título " Minha vida até agora" me despertou o sentimento: você e todos nós deveríamos fazer um balenço da nossa travessia ( até agora) para continuarmos vivendo, com outro olhar, os nossos problemas. Conte sempre comigo na sua vida até agora e na sua vida amanhã, depois de amanhã, depois, depois, depois de amanhã....bjs

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