Parentes queridos parentes

O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.

1 de nov de 2009

Tia Waleska: "Ich möchte ein kleid Kaufen"

Num tempo que se vai longe, num dia de setembro, mais precisamente dia 16, nasceu uma pessoa marcante para grande maioria de nós; assim como outras também o foram. Nasceu e morreu em setembro. De uma forma ou de outra teve papel preponderante em nossas vidas fosse com ensinamentos, com carinhos, com acolhimento, com novidades, com elegância entre tantas outras coisas. Só de conhecê-la já sentíamos que essa era uma pessoa marcante, imagine para nós que tivemos a oportunidade de conviver com ela. Nasceu dia 16 de setembro, seu nome era Waleska e morreu no dia 27 de setembro.

Que bom seria se todos tivessem uma tia Lelé...

A tia Lelé era a tia que todos nós queríamos ter: Bonitíssima, alegríssima, cheirosíssima, com os cabelos sempre arrumadíssimos e sempre nos recebendo com um: “Oi, queridos ou queridas; que bom que chegaram”. "Vão ficar aqui comigo, não é!?" - "Que bom, pois vamos colocar a prosa em dia; vai lá à cozinha e vai pegando um cafezinho." - "Ah! Tem arroz doce na geladeira, pega lá, minha filha", mal nos dava tempo de responder a primeira exclamação e ia nos dando ordens carinhosas e perguntando como estava nossa mãe, nosso pai e dessa forma ia nos mostrando o quanto queria saber e o mais legal, o quanto se interessava por todos. Suas expressões denotavam a vontade de nos ter ao seu lado sempre.

Eu, em particular, tive muitas oportunidades de convivência com a Tia Lelé para alguns de nós ou Tia Waleska como sempre foi para mim.

Curiosamente, não me lembro de seu casamento com tio Zé Cunhado, mas lembro-me claramente de sua casa que ouvia dizer ter sido decorada pela Paschoal Bianco em São Paulo. Não entendia muito bem o que isso significava, no entanto, ficou para mim que era algo muito importante.

Todos os móveis de sua casa eram de madeira quase branca (hoje sei que se chama pau marfim aquele tipo de madeira) e formavam um ambiente muito bonito que adorava admirar; lembro-me de um relógio cuco que não sei onde foi parar e talvez tenha sido o responsável por me fazer gostar tanto de carrilhão até hoje. Esse relógio era sempre parado quando tia Wayne chegava. Na época acreditava que ela, minha tia Wayne, odiava o tal passarinho por isso ele tinha de parar e eu tinha de aguardar outra oportunidade para ver com mais clareza o tal bichinho que insistia em se esconder tão rapidamente em sua casinha por mais que saísse para “cucar”.

Gostava muito da tia Waleska e a respeitava muito por suas idéias muitas vezes tidas de vanguarda pelo restante da família. Foi a primeira a adotar um filho com tudo que poderia advir disso; foi a primeira a se divorciar na família e a enfrentar uma reviravolta na vida incrível como, por exemplo: começar do zero. Ou seja, começar a viver desquitada numa nova cidade com novas exigências e expectativas.

Nossa tia convivia naturalmente com amigos homossexuais quando ainda se torcia o nariz para tal coisa como se fosse o absurdo dos absurdos. Viajava só, saia à noite e estava sempre rodeada de amigos. Gente, inclusive, muito importante como João Carlos Martins, pianista e hoje maestro, que gostava de bater papo em sua cozinha tomando um cafezinho ou comendo um docinho; além da Wanderléa, a cantora entre outras pessoas por quem ela tinha carinho e tratava como pessoas que eram e não artistas famosos como poderia se esperar.

Nossa tia foi muito famosa durante sua vida toda, penso eu, pois foi rainha de bailes, da Radio Paraisópolis e causou furor entre pessoas que a admiravam por sua beleza tais como Carlos Galhardo que segundo consta nutriu uma paixão por ela.

Para quem iniciou sua vida com sucesso e alegria até ela foi sábia quando se deparou com as adversidades que deixaremos de lado.

Tia Waleska SE fez!

Morreu tendo conquistado grande parte de seus objetivos sozinha, não houve problema financeiro que não superasse, tanto é que ao morrer deixou seu filho rico, certo?

A gargalhada dela, que saudade! Era uma alegria só. E quando foi para Alemanha e, errou o caminho, e ao invés de ir para Berlim Ocidental, entrou com tudo na triste e cinza Berlim Oriental. Demos muita risada com ela contando como foi parada, presa e como tentou dialogar com os rapazes sem muita paciência que insistiam em dizer coisas incompreensíveis para ela. Não sorriam aqueles jovens, segundo ela. Tentou usar seu alemão aprendido em aulas dadas por alemães que são uma delicia de se verificar no caderno de estudos que ela fez. (não dou, não empresto e nem alugo). Caros jovens, não se esqueçam que nessa época o Muro de Berlim continuava forte e firme dividindo a cidade!

Há muito que dizer das coisas que aprendi com tia Waleska, mas infelizmente o espaço é curto.

A saudade, no entanto, é infinita!

E aqui vai minha lembrança de você, tia querida, que caia mas levantava com humor.

12 comentários:

  1. Waninha,
    Simplesmente ma-ra-vi-lho-so o que você diz sobre a Waleska aqui!
    Emociona-me muito "escutar" suas palavras nesta descrição primorosa!
    A Waleska era inigualável! Sim, ela era única, e muito especial. Guardo o rosto dela na tela mental da minha memória, guardo ela toda, todo o seu jeito, a sua voz, a risada, sim, a risada, né, Waninha, que você menciona e parece que estamos todos vendo-a novamente!
    A Waleska é inesquecível. Ainda tenho-a vívida nos olhos, nas vezes que estive na sua deliciosa casa na Granja Vianna.
    Saudades grandes da Waleska, Waninha! Imagino a profunda falta dela sentida por vocês, de convivência tão mais íntima que a minha...
    Repito-lhe que estou emocionada com este seu post, Waninha. Linda e justíssima homenagem à uma mulher simplesmente fantástica!
    Mil beijos,
    Eloina

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  2. Que bom ler você de novo e falando sobre minha madrinha de ??? pergunta para sua mãe que nome é que se dá aquela que segura na pia batismal. Veja a quantas anda a minha vaga lembrança.
    Tenho muitas lembranças da Tia Waleska, mas hoje não está dando para lembrar até do meu primeiro nome. A situação não está fácil.
    Amo você menina,incondicionalmente!

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  3. Wania,
    Que bom voltar aqui e ter noticias suas.
    Realmente tia Waleska tinha presença! Saudades dela.
    Tem um episódio nessa viagem que voce menciona, qdo ela estava na Dinamarca co o Alvaro Henrique num teatro, eu acho, que passaram a mão na bunda dela...ela ficou indignada e o Alvaro deu aquela risada gostosa dele e disse que por lá nenhuma mulher tinha igual a dela, que realmente chamava atenção.
    Ela realmente era a frete de seu tempo e de uma sinceridade deliciosa. Quando o Hélio a conheceu, logo no primeiro dia, ela comentou com ele que estava lendo um livro que recomendava a mulheres da idade dela, que para fazer a hipófise funcionar era recomendado sair com homens mais jovens, o que faria com que ela emagrecesse...e ela com aquela cara de séria dela disse a ele - eu vou experimentar, se der certo te falo, se não der, fico quietinha! Ele a adorou logo de cara.
    Vou descobrir o porque do cuco ser parado pela minha mãe e depois comento com vc!
    Por falar em minha mãe, me lembrei de mais uma...quando eu nasci, minha mãe pegou uma carona com algum amigo para Paraiso, para que ue nascesse com Tio Waltão, e levou a Renata, os pertences dela, os da Re e os meus...enfim uma mudança, e a Tia com aquele jeito tranquilo dela ligou pra tia Walderez e disse - A Wayne chegou para o parto, mas pelo tanto de coisa que ela trouxe, acho que veio de vez!
    Que bom que tivemos a sorte de ter tias tão gostosas e que nos deram boas histórias.
    Bjs

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  4. Tia Waleska foi nos ver em CJ e estava de turbante. Creio eu que era pra esconder os novos cabelos e como era muito vaidosa não queria nos mostra-los brancos. Insisti e ela tirou o turbante azul turquesa e levei um choque: Aqueles lindos e lisos cabelos loiros estavam brancos e CRESPOS!!
    Quando fiquei careca pensei: será que vão nascer igual aos da Tia? Pois nasceram... Hoje tenho cabelos cacheados e lindos. Mas somente meia dúzia são brancos. Minha relação com Tia Waleska era aberta e eu me sentia protegida - da minha mãe - com os conselhos dela. Tia Waleska era a TIA TIA, além disso no que diz respeito a cabelos, eu, ela e tia Filinha estamos ali ó! Até hoje corto os cabelos do Zé Carlos Meu Marido e dos sobrinhos menores.

    Obrigada Wania... Bom vc de volta!

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  5. Waninha,
    Linda homenagem!
    Tenho muitas lembranças da tia. Sempre arrumada. Ela dizia que a profissão exigia, mas na verdade, sabia o quanto era linda e caprichava...rsss. Infelizmente guardo na lembrança, também, um único momento triste ao lado dela. Entrei no necrotério para prepará-la para o velório. Mamãe e tia Waldete não conseguiram. Mas deixa pra lá.....é muito melhor lembrar do sorriso, do olhar de lado, das piscadas e da força que ela transmitia a cada uma nós que via nela um exemplo de mulher a ser seguido.
    saudades

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  6. Wania,
    Descobri o mistério do "cuco". Era para não acordar as filhas, pois em casa não tinha barulho, e nós acordavamos sempre que o cuco cantava. E descobri mais uma coisa, Tio Zé Cunhado não entrava em casa com o cavalo qdo estávamos lá. Parava na rua e tirava o arreio e entava a pé, para não perturbar o sono das sobrinhas.
    Minha mãe mudava a rotina da casa toda. Pode???
    Continua a mesma....
    Bjs

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  7. Wania

    Que bom ler vc novamente, e com lembranças de um lugar onde passei boa parte de minha infância, no campinho da frente jogando bola com o Wellington, ou mesmo quando comecei a namorar a Vá, tia Waleska me ajudou a escolher uma das primeiras lembranças de dia dos namorados, um relógio de tinha um desenho de um olho no mostrador e a pulseira era de lenço colorido, o máximo.
    Boas lembranças, tia up.

    Escreva sempre que for possível, com certeza faz muito bem a quem lê e pode comentar lembranças boas, traz um dia bom.

    Wania mais uma vez obrigado, beijão a tds que estão por aqui

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  8. Oi Fer,
    Que bom ver pelo menos você lembrando de tia Waleska e tecendo um comentario tão "tal e qual". Duvide-o-do que ninguem lembre-se dela. Sabe, estou com vc, nossas tias e tioas nos renderam boas lembranças e espero que façamos o mesmo.
    Ah! Sabe o que significa o titulo? peguei de um caderno dela das aulas em alemao. Significa: "Quero comprar um vestido". Só ela para ter essa ideia numa aula, não é?
    beijos

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  9. Curiosamente percebi que são exatos 30 dias e ninguem mais se manifestou... Curioso!

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  10. Wania,
    Descobri o porque do relógio...era para não acordar as filhas dela...inclusive qdo ela estava hospedada na tia Waleska, tio Zé cunhado descia do cavalo lá fora, tirava o arreio pra não roubarem e o deixava lá pelo mesmo motivo...acredito que ele achava a cunhada dele uma verdadeira CUnhada rs.
    Acho que vc deveria passar uma semana com a minha mãe junto com a sua para lembrar velhas histórias. Minha mãe tem boa memória e lembra de cada coisa... seria engraçado ficar ouvindo as duas...
    bjs

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  11. Escolhi Tia Lelé para ser minha madrinha de Crisma. Minha querida e fantástica tia-madrinha!Como me ensinou! Das coisas práticas da vida me ensinou: me maquiar diariamente mesmo quando se levanta às 6h, a maquiar outras mulheres para ganhar um dinheirinho( emprego da adolencencia: maquiadora no salão de beleza dela ), implantar cílios postiços (supreendidos?) , a vender qualquer coisa , a ser relações públicas, a usar encharpes e lenços, a nunca combinar os sapatos com a bolsa, a usar blaser com calças jeans , usar pantalonas sem medo (inclusive casei com uma , de seda , maravilhosa, há 29 anos atrás) , a abusar dos saltos bem altos mesmo eu sendo alta , usar pérolas falsas ou verdadeiras com camiseta básica branca, fazer as unhas semanalmente independentemente da faxina que enfrentaremos , a não ter medo de pessoas e perguntar: Posso te ajudar?. Minha nossa!!! Acabo de descobrir as muitas coisas que me ensinou e que eu, com orgulho, não esqueci!

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  12. Que lindo minha irmã,
    Acredito que todas nos tivemos exemplos "ensinantes" com muitos, para não dizer todos, os tios e os primos-tios. Sinto falta de deixar isso para a novíssima geração, sabia?
    beijinhos e obrigada por escrever apos tanto tempo... Mas o que é o tempo para nós que trazemos recordações aqui dentro, não é?

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