Parentes queridos parentes

O que são parentes? Como surgem? São importantes? O que nos acrescentam? É sobre essas questões que me proponho a pensar e falar mais do que qualquer coisa. Não que outras coisas não sejam importantes.

24 de ago de 2009

Num dia 24 de agosto nasceu um grande homem

No dia 24 de agosto nasceu Walter Lima Brandão. Filho de Tia Quita e Tio Wolfgango (minha mãe acredita que Tia Quita era da familia Salgado de São Bento de Sapucaí e que seu nome era Virginia). Tornou-se ao crescer no "Dr. Walter Brandão" ou Waltão para todos. Achava muito estranho alguém chamar médico de Waltão e me recordo que sempre ficava em dúvida se deveria chamá-lo tio, primo, Waltão, ou de Dr e acabava chamando de tio Waltão. Recordo-me de se referir a mim sempre como a Waninha, filha da Waldete.
Esse homem, independente do lado humanitário era um verdadeiro ídolo para seus primos, em especial suas primas. Ouvi médicos elogiando a curetagem que minha mãe fez com ele como se fosse uma obra de arte tal qual Monalisa de da Vinci. É muito interessante perceber que um primo tornou-se médico e que todos confiavam nele como tal, sem vergonha, inibições ou coisas do genero tão complicadas e típicas das décadas de 1950-60. Confiava-se nele como primeira e última palavra nos quesitos relacionados a saúde. Todos, sem exceção devem ter um caso ou outro para relatar a respeito desse grande Homem. Um feito extraordinário de sua parte foi quando meu irmão André resolveu obedecer os primos mais velhos e literalmente cutucar o burro com a vara curta. Além de voar como um saco de batatas - não sei se passou a cerca do curral ou bateu nela e caiu -, sua boca rasgou de tal forma que para variar um dos grandes pampeiros armados na fazenda deu inicio. Meu avó ficou muito bravo e ao mesmo tempo em que agradecia aos Céus o fato de meu irmão estar tão próximo do burro, zangava-se com quem deixou o burro ali, com quem tinha dado a idéia, com meu irmão que era danado, etc e tal. Afirmava categoricamente que aquele burro era um perigo pois dava coice até na sombra ao mesmo tempo enquanto dizia que ainda bem que não estava ferrado. Olhando a distância lembro-me que era um tal de gente grande falar ao mesmo tempo tomando decisões, uns obedecendo outros não que até hoje tenho uma sensação de ter me tornado invisível pois ninguém me deixava ver a boca de meu irmão. Era como se eu não estivesse ao lado daquela gente enlouquecida dizendo coisas como: E agora? Acho que precisa levar para cidade... ao que meu pai disse: É claro tem...
E lá foram minha mãe, meu pai e meu irmão enquanto meu avô diza "dá na mão do Waltão... E o resto (resto eramos nós) senta a bunda e fica quieto". Era sempre assim: um fazia qualquer coisa e o resto tinha de ficar com a bunda em algum lugar e ficar quieto até a zanga passar.
É tempo de dizer que nosso avô era homem de iniciativa, não tenham dúvida quanto a isso. Mas se havia uma coisa que não fazia era pegar um veiculo e ir para cidade rapidamente. Não é que não soubesse dirigir, sabia sim. Tinha, inclusive, um Jeep. O problema é que só sabia ir para frente. Quando precisava dar ré chamava alguém para por aquele "negocio de cara pra lá". Acredito que se o tal negócio estivesse de cara para o lado certo, ele mesmo teria levado meu irmão para o Waltão.
E o Waltão fez um serviço tão bem feito em meu irmão que nem marca deixou. Foram nove pontos dignos dos bordados da Ilha da Madeira.

Ao ler esse episódio para minha mãe ela me disse: Quando você era pequena tentou pegar a Walkiria no colo e a derrubou no chão. Sai desembestada pelo beco e ao chegar no Walter ele estava acabando de se recostar num sofá após um parto difícil e cheguei desesperada com a Walkiria. enquanto falava pela boca e pelos cotovelos o que tinha acontecido; deu uma olhada e disse: Dê duas gostas de Coramina que já já estará boa. Foi um susto danado mas graças a Deus deu tudo certo, terminou ela.

Subi a escada pensando e eu? Tenho de registrar mais esse episódio no caderno de culpas...

Duas coisas estão registradas em minha memória em relação ao tio Waltão: Gostava de deitar no chão e tinha uma camionete maravilhosa. E só isso já bastaria para tê-lo registrado no coração.

6 comentários:

  1. Todo dia 24 de agosto sempre me lembro do Tio Walter!
    Waninha, muito lindo o que você escreve sobre ele para nós. Grande homenagem a sua!
    Só de saber que estão juntos de novo a Tia Nair e o tio Walter fico tão contente!
    Parabéns ao tio Walter, nesta data lembrada e querida!
    Beijão aos seus filhos, meus queridos primos, Vera, Walter, Tarcísio e Virgínia.
    Beijão a todos vocês também.
    Eloina

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  2. Este post me deixou um pouco mais triste, além do que já estou!
    Me fez lembrar e constatar que tudo hoje em dia, é medido pelo que você TEM e não pra o que você É.
    Médico de fámilia. Médico da família.
    Tio Waltão era um humano humatitário. Era aquele médico que sabia TUDO. Da unha encravada ao mais complexo diagnóstico.
    Tio Waltão era aquele médico "clínico geral".
    Hoje em dia, vocês da geração "mac" não sabem o que quer dizer "clínico geral".
    Hoje se você tem uma dor na "canela", não adianta ir a ortopedista. Vá no especialista do osso do "perônio". Não vá no especialista da "tíbia", pois ele não vai saber tratar do seu "pêronio".
    A capacidade de um "profissional" assimilar os conhecimentos necessários para ser um médico completo, já não existe mais. Ele só É aquilo. E às vezes nem é dos bons...

    Tio Waltão, não... ele era o médico que curava tudo. Curava tudo MESMO.
    E o melhor dele era a sua delicadeza, apesar do "tamanho" ...
    Acredito que a maioria dos "antigos" já foi medicado, costurado, engessado, operado, tratado... enfim, acariciado pelo querido Tio Waltão.
    Eu já fui tudo isto... e mais, uma vez ele queria quebrar meu braço(de novo), para poder engessar certo, pois o "médico" que fez isto, deixou meu osso torto.
    Por medo, fugi deste diagnóstico e isto acarretou na parada da minha promissora "carreira de pianista" :)
    Se eu tivesse escutado o nosso médico da família, hoje vocês estariam lendo palavras de uma famosa pianista.

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  3. Já coloquei aqui algumas das minhas experiências com o médico: meu nascimento, minha unha perdida, a insolação sofrida quando criança e tenho algumas mais para narrar que ouvi de meu pai e que parecem lendas. Dr. Waltão salvou a vida de um trabalhador rural que teve literalmente seu cérebro espalhado pelo pasto e com uma lavadinha,recolocação no lugar, alguns pontos e nenhuma sequela; uma parturiente que se encontrava longe e na madrugada não deixava de ter atendimento. Entrava na "Rural" fosse a hora que fosse e ia cumprir o juramento de Hipócrates. São médicos, assim, que necessitamos! Que orgulho esse médico ser nosso primo! Agora vou falar do homem, do primo Waltão. Tem coisa mais gostosa do que lembrar do abraço dele? De recordar o cheirinho de limpeza que ele tinha mesmo depois de atender uma emergência e precisar trocar o jaleco? O que não sai da minha memória é o beijo que ele deu no meu dedo "para sarar". Ali não estava o médico que com perfeição limpou, costurou e medicou o estrago feito. Ali estava o meu primo dizendo que tudo estava bem.
    beijos

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  4. E a longa perna balançando sem parar embaixo da mesa, fazendo tremer tudo ao seu redor...

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  5. Com todas as habilidades médicas ainda possuia as manuais domesticas, lembro das delicadas trançadas num barbante que ficou bem legal, fez uma coleira para o cachorrinho, tipo fox paulistinha branquinho que me deu, fiquei vidrado vendo aquele baita homem com uma paciência maior ainda preparando a entrega completa do meu presente, essa cena jamais vou esquecer, ele realmente era a cara de nossa familia.

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  6. Hj, do tamanho que somos, provavelmente não o achariamos tão grande no tamanho,assim como depois de adulta, descobri que o corredor enoooooorme da fazenda, eu conseguia atravessar com 5 passos, mas com certeza era uma pessoa com uma sabedoria enorme.
    Grande Tio Waltão.

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